Dizer que o SUS está "à beira da perfeição" (que é muito diferente de dizer que "a idéia do SUS está a beira da perfeição", ainda que ela não SEJA perfeita e tampouco ESTEJA, o que seria um emprego estranhíssimo de verbo e tempo verbal para referir-se a algo abstrato como uma idéia ao invés de um sistema) é mentira, vigarice e pouco caso com o martírio daqueles que dependem de um sistema de saúde pública de faz-de-conta.
Antes de irmos ao assunto, uma historinha. O marido de uma tia,que é meu vizinho, teve um câncer de laringe. Os custos da cirurgia para retirada do tumor foram bancados por parentes e amigos. A cirurgia durou 10 horas. A equipe médica recebeu cerca de R$ 15.000 pelo procedimento. A quimioterapia foi bancada pelo SUS, assim como as sessões de radioterapia. Mas, se o sistema ainda consegue fornecer o tratamento quimio e radioterápico - pelo menos nesse caso, não disponho da estatística da oferta do tratamento à população em geral - o que ele paga ao médico por procedimento realizado é ridículo.
Após a cirurgia, meu vizinho continuou fazendo consultas de acompanhamento. Um ano depois, numa conversa com seu médico, este lhe contou que operara recentemente um paciente do SUS com o mesmo tipo de tumor. Este paciente, no entanto, chegou ao centro cirúrgico com um tumor num estágio bem mais avançado, dado que teve de esperar na fila do sistema "quase perfeito" para conseguir ser operado. Em casos de câncer, o prognóstico está diretamente ligado ao tempo de início do tratamento. Quanto mais cedo se tratar o paciente, maiores são suas chances de cura. No caso desse paciente, o tumor, em estado avançado, obrigou o cirurgião a remover-lhe metade da mandíbula, as cordas vocais e metade da língua. A cirurgia durou 12 horas. Alguém imagina quanto o SUS pagou ao médico por esse procedimento "simples" que durou 12 horas ininterruptas? Tentem imaginar, meus caros. Arrisquem um valor. Pois bem, o cirurgião recebeu do SUS a magnífica quantia de... 70 reais. Repetindo, SETENTA REAIS, não foram 700, nem 7.000.
Por que este médico opera pelo SUS? Certamente não é pelo dinheiro. Pode ser porque lá no SUS ele tem à sua disposição casos complexos que aprimorem suas habilidades de cirurgião, casos para levar para discutir em congressos. Pode ser que o faça por caridade, por amor ao próximo. Pode ser que seja um "tarado do bisturi", um aficionado pela nobre arte de cortar tecidos e órgãos. Pode ser que opere para alguma faculdade de medicina. Mas certamente ele não faz essas cirurgias por causa dos R$ 70 que receberá por procedimento. Entre sobreviver com o que o SUS lhe paga ou ir vender pastel com caldo de cana na rua, se o doutor colocasse na ponta do lápis, jogaria fora seus dez anos de estudo (no mínimo) e partiria para a economia informal. É intrigante que esse sistema ainda funcione e já não tenha colapsado de vez. Talvez aí esteja a tal "perfeição" de que falou o desonesto ex-presidente, uma perfeição oriunda de fatores imponderáveis, imprevisíveis, explicados apenas, quem sabe, pela teoria do caos ou por algum feitiço ou macumba, algo místico ou sobrenatural. Até porque o governo se esforça por tornar pior aquilo que já é ruim, conforme se pode ver na coluna de hoje de Elio Gaspari, que segue abaixo. Vale a pena ler. É mais uma mostra de que promessa de campanha só vale na campanha.
Para partidários e militantes do lulo-petismo, a solução para o que vai no artigo é simples, é só falar que Gaspari é do "PIG", que se trata de um "reacionário", que faz parte da "grande mídia", que ele é "de direita". A esse tipo de "argumento", os militantes chamam de "luta política" e consideram-na como algo legítimo. Primeiro a tal "luta política", depois tratamos da realidade e da verdade (se der tempo e se for conveniente). Na visão de um "lutador-politico", Gaspari é um golpista porque não escreve o que deveria escrever. E o que ele deveria escrever são coisas desse tipo: "O SUS, que tinha sido destruído no governo FHC, chegou à beira da perfeição com Lula. Depois da eleição de Dilma, ficou perfeito. A única coisa que falta ao sistema é conseguir que nossos médicos recebam o mesmo salário de um médico cubano: R$ 50. Apesar de algumas dificuldades, criadas pela perfeição do sistema (é que as pessoas ainda não estão acostumadas com algo tão bom e perfeito), a Presidenta (conforme orientação do parti... digo, governo, todo aquele que não for golpista deve grafar e falar 'Presidenta', pois quem fala e escreve 'Presidente' é reacionário, assim como quem começa a falar em público sem cumprimentar 'a todos e a todas') já emprega toda a sua reconhecida capacidade de gestão - nunca antes vista nesse país - na feitura de pequenos ajustes no sistema perfeito do nosso Canadá dos trópicos".
Para um militante gramsciano é impossível discutir dados da realidade sem vieses políticos-partidários e sem segundas intenções. Aprenderam que "tudo é política", que a realidade não deve ser debatida, exceto nas reuniões do partido. O partido sabe o que é melhor para a sociedade, e quando esta é chamada a participar "democraticamente", isso deve ser feito por iniciativa do próprio partido, em convenções, jornadas e oficinas. Primeiro, os interesses do partido, depois, tratamos da realidade. Melar a bela propaganda governista com dados da realidade é interpretado como "golpismo". Dadas essas condições, a conclusão que se chega é que o debate honesto e sincero não pode existir. O que existe é apenas a "luta política". Por luta política, entenda-se: mentir, distorcer, omitir, caluniar, comprar, vender, negociar; enfim, valer-se de qualquer artifício para chegar e se manter no poder. Essa é a prioridade. O resto fica para depois, e olhe lá. Sendo essa a situação, fica fácil de entender o porquê dessa obsessão com a "mídia golpista". Gato escaldado tem medo de água fria. É assim que pensam, é assim que agem. E é assim que julgam os outros, tendo por referência a si mesmos e o próprio proceder. Vale lembrar que a maioria dos eleitores não é militante nem filiado, e está se lixando para partidos e ideologias. Querem apenas conseguir marcar uma consulta ou cirurgia, e esperam que essa seja a prioridade do partido e da "presidenta". Segue o artigo.
ELIO GASPARI
Dilma quer que esqueçam o que disse
RODOLFO FERNANDES, diretor de redação de "O Globo", morreu no sábado, aos 49 anos, e foi lembrado por colegas e políticos. Há ocasiões em que alguém diz alguma coisa que simplesmente recomenda sua repetição. Isso se deu com o que disse Fernando Henrique Cardoso: "Rodolfo era um príncipe. No jornalismo e na amizade."

Durante a campanha eleitoral, Dilma Rousseff prometeu regulamentar, "logo no início do mandato", a emenda constitucional que demarca os recursos destinados à saúde pública. Prometeu também não patrocinar aumentos da carga tributária. Passaram-se oito meses e apareceu uma nova agenda. Enquanto obstrui a votação da Emenda 29, o Planalto pede ao Congresso um debate para que se busquem novas fontes de financiamento para a saúde. Há três ideias em circulação: uma aumenta a carga de impostos, recriando a CPMF; outra incentiva a tavolagem, legalizando os bingos; e a terceira busca o dinheiro nos royalties do petróleo. Como sempre, a solução para um problema, seja ele qual for, está em engordar a caixa do palácio.
No mesmo dia, a presidente mostrou que acredita na onipotência das canetadas. O exemplo disso está na nova legislação que altera o mecanismo de ressarcimento, ao SUS, do que ele gasta com clientes dos planos de saúde.
Nela, a boa ideia é cobrar pelos atendimentos ambulatoriais e por alguns procedimentos custosos. A má é trocar o destinatário do ressarcimento. Em vez de o dinheiro ir (em tese) para quem cuidou do paciente, irá para os comissários de Brasília que controlam o Fundo Nacional de Saúde. Numa conta da Controladoria-Geral da União de janeiro passado, os repasses irregulares do FNS iam a R$ 663 milhões.
Em vez de se discutir o fracasso da Agência Nacional de Saúde, que em 2010 empulhou a patuleia anunciando um novo sistema de cobrança quando nem sistema havia em operação, oferece-se uma nova visão do paraíso. Entre 2006 e 2010 a agência recebeu das operadoras R$ 37,7 milhões. A estrutura burocrática da cobrança custou mais que o valor arrecadado.
Os brasileiros acompanharam com mais detalhes o debate da saúde pública na administração de Barack Obama do que nos governos de Lula e Dilma. Numa vinheta ilustrativa dos interesses privados nesse silêncio, vale lembrar que na galeria dos 30 bilionários nativos listados pela revista "Forbes" entraram, com US$ 3,9 bilhões, dois controladores da Amil. Noutra cena, há uns dias o presidente da Câmara, Marco Maia, voou de favor num helicóptero e num avião da Uniair, empresa da operadora Unimed. A bancada dos planos de saúde no Congresso senta-se, majoritariamente, na base de apoio do Planalto.
A repórter Beth Koike mostrou que entre 2000 e 2009 o número de clientes dos convênios médicos cresceu 40%, atingindo 42 milhões de pessoas. Segundo o IBGE, entre 1999 e 2009 o número de leitos oferecidos pela rede privada encolheu 18%. Foram fechados 400 hospitais, com 11 mil leitos.
O sistema de financiamento da saúde pública brasileira está bichado. Esse debate ultrapassa, de muito, a simples discussão da Emenda 29 ou a busca de novas fontes de arrecadação. Se o governo não quer obrigar os Estados a suspender as maquiagens com as despesas de saúde, vive-se o pior dos mundos.
Dilma quer que esqueçam o que disse
A agenda do governo para a saúde é a de sempre, quer mais dinheiro, sem mudar coisa alguma |
RODOLFO FERNANDES, diretor de redação de "O Globo", morreu no sábado, aos 49 anos, e foi lembrado por colegas e políticos. Há ocasiões em que alguém diz alguma coisa que simplesmente recomenda sua repetição. Isso se deu com o que disse Fernando Henrique Cardoso: "Rodolfo era um príncipe. No jornalismo e na amizade."

Durante a campanha eleitoral, Dilma Rousseff prometeu regulamentar, "logo no início do mandato", a emenda constitucional que demarca os recursos destinados à saúde pública. Prometeu também não patrocinar aumentos da carga tributária. Passaram-se oito meses e apareceu uma nova agenda. Enquanto obstrui a votação da Emenda 29, o Planalto pede ao Congresso um debate para que se busquem novas fontes de financiamento para a saúde. Há três ideias em circulação: uma aumenta a carga de impostos, recriando a CPMF; outra incentiva a tavolagem, legalizando os bingos; e a terceira busca o dinheiro nos royalties do petróleo. Como sempre, a solução para um problema, seja ele qual for, está em engordar a caixa do palácio.
No mesmo dia, a presidente mostrou que acredita na onipotência das canetadas. O exemplo disso está na nova legislação que altera o mecanismo de ressarcimento, ao SUS, do que ele gasta com clientes dos planos de saúde.
Nela, a boa ideia é cobrar pelos atendimentos ambulatoriais e por alguns procedimentos custosos. A má é trocar o destinatário do ressarcimento. Em vez de o dinheiro ir (em tese) para quem cuidou do paciente, irá para os comissários de Brasília que controlam o Fundo Nacional de Saúde. Numa conta da Controladoria-Geral da União de janeiro passado, os repasses irregulares do FNS iam a R$ 663 milhões.
Em vez de se discutir o fracasso da Agência Nacional de Saúde, que em 2010 empulhou a patuleia anunciando um novo sistema de cobrança quando nem sistema havia em operação, oferece-se uma nova visão do paraíso. Entre 2006 e 2010 a agência recebeu das operadoras R$ 37,7 milhões. A estrutura burocrática da cobrança custou mais que o valor arrecadado.
Os brasileiros acompanharam com mais detalhes o debate da saúde pública na administração de Barack Obama do que nos governos de Lula e Dilma. Numa vinheta ilustrativa dos interesses privados nesse silêncio, vale lembrar que na galeria dos 30 bilionários nativos listados pela revista "Forbes" entraram, com US$ 3,9 bilhões, dois controladores da Amil. Noutra cena, há uns dias o presidente da Câmara, Marco Maia, voou de favor num helicóptero e num avião da Uniair, empresa da operadora Unimed. A bancada dos planos de saúde no Congresso senta-se, majoritariamente, na base de apoio do Planalto.
A repórter Beth Koike mostrou que entre 2000 e 2009 o número de clientes dos convênios médicos cresceu 40%, atingindo 42 milhões de pessoas. Segundo o IBGE, entre 1999 e 2009 o número de leitos oferecidos pela rede privada encolheu 18%. Foram fechados 400 hospitais, com 11 mil leitos.
O sistema de financiamento da saúde pública brasileira está bichado. Esse debate ultrapassa, de muito, a simples discussão da Emenda 29 ou a busca de novas fontes de arrecadação. Se o governo não quer obrigar os Estados a suspender as maquiagens com as despesas de saúde, vive-se o pior dos mundos.
PS: quem quiser saber mais sobre a espera nas filas do "perfeito" SUS é só acessar mais esse blog da "mídia golpista": http://participacaomedica.com.br/wordpress/?p=749
2 comentários:
Caro Mário Toledo, Bom Dia!
Mais um prazer poder comentá-lo...
Realmente é uma falácia aos militantes considerar um jornalista como Elio Gaspari como golpista! Trata-se para mim de um dos homens mais pacientemente inteligentes do país! Sim... porque quem escreve os 05 volumes, tão detalhados em documentação e informações sobre o governo militar, como o Elio escreveu é um abnegado!
Admiro o Elio por também já ter sido chamado de esquerdista caquético por muitos pijamas de farda e civís combatedores à revelia do atual governo!
Isso o mostra um homem independente...
Quanto ao fato de considerar tudo como política, como você atribui aos militantes, diria que nem tanto nem tampouco!
Há que se frisar que se manipulam números quando se quer, sejam para fins direitistas ou esquerdistas!
Nunca esqueço o flagrante que as câmeras captaram com relação às colocações informais do então Ministro Rubens Ricúpero, lembra?
Ele falou ao ouvido do parceiro que os números econômicos davam o que o governo quisesse!
Desçamos aos algarismos simples e verdadeiros de cada unitário e solitário que utiliza o sistema SUS e veremos a lástima em que realmente ele se encontra!
Mas.. isso você já o fez com maestria nos exemplos dados em sua história postada!
Meus respeitos!
Meu abraço!
Erik Bispo
O prazer é meu de contar com sua participação e opiniões, prezado Erik.
Lembro-me bem da fala de Ricupero: "o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde".
Em relação ao Gaspari, se tivesse de apontar para que lado do espectro político ele pende, certamente seria a esquerda. Daí o absurdo de a militância poder chegar ao ponto de considerar, a ele e outros (já vi militante chamado Mino Carta de direitista só porque se posicionou contra o asilo a Cesare Battisti) como "direitistas".
Forte abraço!
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